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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Reflexões I

Na Universidade os professores pouca coisa me ensinaram ou eu não aprendi, o que vai dar ao mesmo. Mas uma coisa ficou: em democracia, os povos têm os governantes que merecem. Ou seja, os governantes (ou os políticos, em geral) são apenas um espelho da população de um país. No caso dos portugueses, não ficamos muito bem na fotografia. Quando se fala em população referimo-nos, por facilidade, às classes médias e não às classes marginais. Aliás, a classe média é essencial para a democracia e vice-versa. É a classe média que confere estabilidade às democracias e mantem as margens contidas. Por seu lado,é a democracia que permite a estabilidade das classes médias. Assim, a qualidade de uma reflecte-se, necessariamente, na outra.

O que podemos designar como classe média portuguesa é relativamente recente. Desenvolveu-se sobretudo após o 25 de Abril e, por isso, está indelevelmente marcada por um carácter específico, que a distingue das classes médias de outros países europeus. Veremos como este facto não é dispiciendo.

A melhoria sensível das condições de vida fez-se em menos de uma geração, o que é, só por si, um facto deveras assinalável mas é, também, a raiz de muitos problemas. E o maior podemos designá-lo: novo-riquismo. Porquê? Bom, o rendimento disponível das famílias serve, acima de tudo, para alimentar uma ostentação saloia, de mau gosto e desregrada. Séculos de miséria indigente tornaram-nos ávidos de consumo e de desperdício. O desperdício é o luxo dos ricos. Confundimos modernidade com tecnologia, que é utilizada, sobretudo, para fins lúdicos. Assim se explica a paixão nacional por telemóveis, plasmas, leitores de mp3 e demais gadgets tecnológicos. Da mesma forma, o Governo acredita que um computador portátil montado em Portugal nos tornará uma potência exportadora de tecnologia e que um computador para cada aluno elevará os nossos padrões de ensino (a este respeito relembro uma interessante reportagem transmitida na SIC, há uns tempos, bem reveladora do uso dado pelos alunos aos portáteis do programa e-escola).

A Educação é, aliás, um dos problemas mais graves. Não confundo aqui Educação com Instrução. São coisas diferentes. A Instrução serve para as estatísticas; a Educação serve para moldar um país. A Educação democratizou-se e deteriorou-se. Uma coisa não conduz necessariamente à outra, mas corre esse risco se não for bem conduzida. Como é óbvio, não foi. O ensino e a aprendizagem tornaram-se conceitos vagos e latos, onde tudo cabe. Os apelos ao esforço e ao estudo são, hoje, excentricidades ou - pior - resquícios de um tempo passado. A linguagem pomposa, rebuscada mas oca das ciências da educação, é própria do novo-riquismo, da ânsia de modernidade e progressismo. É, também, o pior veneno: menoriza o esforço e o mérito e produz gerações de analfabetos funcionais, gente que não entende o que lê, de cultura geral anémica e perfeito desconhecimento do mundo que a rodeia. Isto conduz à massacrante propagação do lugar-comum, da mediocridade, do superficial. Cria uma raça de gente desmazelada e pouco informada, desinteressada.

A exigência pelo rigor é mal direccionada: mais facilmente se desculpabiliza o autarca aldrabão do que o jogador de futebol que falha o golo decisivo. Confunde-se exigência com sobranceria e rudeza. Assim é o novo-rico.

O sistema torna-se imparável; torna-se uma linha de montagem de profissionais mal prepradados que se vão replicando porque a situação é, de algum modo, confortável. Tornam-se avessos a qualquer mudança.

A Universidade que, ao menos, devia preparar os alunos na especificidade de cada curso, nem isso faz. Os alunos saem das Universidades sem dominar sequer a sua área de saber. A Universidade que devia formar cidadãos numa multiplicidade de saberes (por isso se chama Universidade), permite que os alunos lhe passem pelas mãos sem demonstrarem os seus conhecimentos mais básicos, como ler ou escrever em condições. Da massa de alunos, ela escolhe os seus filhos dilectos, formados numa cultura de elite, preconceituosa, fechada e profundamente ortodoxa nos seus fundamentos.

A vulgaridade atinge todos os sectores. O país torna-se um enorme subúrbio: uma coisa feia de casas amontoadas sem plano, de prédios deprimentes plantados no meio de terrenos esventrados onde, durante anos, jazem os detritos que sobejam das obras. Os arremedos de jardins e parques em pouco tempo se desmazelam e sujam. Os passeios ficam inacabados e as ervas crescem nos intervalos. As estradas são apenas alcatrão pintalgado de branco, as bermas são negligenciadas, a sinalização é vandalizada. São aspectos aparentemente risíveis mas que revelam muito sobre um povo e os seus governantes.

 

publicado por bmptavares às 15:04
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